quinta-feira, 24 de abril de 2014

O CONVITE INESPERADO

Meu sexto-sentido funciona muito bem. Sabia que algo iria acontecer naquela sexta-feira ensolarada. Foi quando abri meu Facebook e tinha um inbox da coordenadora de projetos pedagógicos do Projeto Casulo. 

Lembrei que havia mandando o projeto Novos Olhares pra ela sem uma pretensão muito clara, e lá estava o convite: ela me chamava para dar 6 oficinas de teatro para seus alunos de 12 a 14 anos. 

Aceitei na hora, mesmo com muito medo! Chegando lá, conheci pré-adolescentes carentes de atenção, e que como qualquer pré-adolescente desta idade, sem muito saber o que ser. 

É difícil quando uma aula de teatro é obrigatória. O teatro exige que você se mostre completamente para o outro. Mesmo aquele "mais engraçado da turma" fica tímido na hora de fazer qualquer improviso; e aí a timidez aparece de diversas formas: desinteresse, risadas, inquietação, silêncio... 

Percebi uma coisa muito triste: antes da aula estava com medo! Medo do que?! Olha o seu tamanho, mulher! Medo de não conseguir fazer aquilo que me propus a fazer... Pura ansiedade! Mas entendo a sensação na hora: "Vou fazer o que se eles não quiserem fazer nada?! Só não quero ter que ficar correndo de um lado pra outro dando bronca. Como eu posso prender a atenção desse povo?!". Ali senti que a missão é difícil, e que pra conseguir o objetivo requer muita determinação!

Eu não sou o tipo de professora que acha a bronca a melhor maneira de solucionar o problema. Gosto da conversa, do debate. Pra mim, o teatro é uma arma política! O que eu estava fazendo lá era política. Política com quem sabia pouco da vida, e menos ainda do que os espera no mundo lá fora... 

Se consegui fazer tudo o que eu queria? De jeito nenhum! Mas tenho certeza que plantei uma boa semente na turma da manhã, mais quieta, um pouco mais interessada. Plantei algumas sementes em alguns alunos da tarde, onde a turma era mais agitada. Mas a maior semente plantada foi em mim mesma: a consciência de que o que eu quero fazer é realmente difícil, mas vale a pena!

A simples conversa com um garoto que sofre bulling por ser mais fraco, dizendo para ele que no futuro o que vai importar mesmo é a sua inteligência (mesmo que ele não tenha entendido na hora, sei que chegará o momento); a tentativa de demonstrar que a liderança pode ser boa se o líder natural do grupo a souber utilizar; a atenção dada à menina que é artista por natureza e que só queria mostrar sua dança; a tentativa das meninas mais tímidas de fazer um exercício; as respostas inteligentes dos mais terríveis da turma. Tudo isso todos os professores aprendem em sala de aula, mas poucos sabem utilizar. 

O que eu entendo por educação é a pura troca de experiência, e o teatro já é em si um jogo de troca. Fazer teatro não é fácil, requer coragem. Ser pré-adolescente requer coragem. Viver requer coragem. Somos todos corajosos, mas infelizmente poucos tem a oportunidade de se mostrar ao mundo, o que na maioria das vezes é o caso desses meus alunos de 6 aulas. 

Se todos nós percebermos que cada indivíduo tem um poder e é uma peça fundamental deste país, tenho certeza que caminharemos para um lugar melhor. Todos juntos somos fortes!

2 comentários:

  1. Que bacana esse depoimento Beatriz. Bela experiência! Gracias por compartilhar!

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  2. Parabéns, Beatriz por acreditar no empoderamento destes alunos através dos teus saberes! Adoro esssas trocas de saberes!
    Abs e luz,

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